"Tornei-me insano, com longos intervalos de uma horrível sanidade" - Edgar Allan Poe

W. R. SANTHOS

Minha foto
Porto Alegre, Rs, Brazil
Escritor. Pintor. Cineasta Amador.

Postagens populares da semana

Seguidores

sexta-feira, 13 de abril de 2018

Um Diferente Entre Nós




Punta Arenas é uma pequena cidade aqui do Chile, localizada na Península de Brunswick, o cemitério Municipal é uma das principais atrações daqui, tem um belo jardim e mausoléus impecavelmente construídos de forma a recriar o estilo de vida de seus donos, eu e minha família moramos quase que no lado, quando pequeno tinha medo do lugar, mas hoje em dia aproveito o lugar pra ganhar dinheiro com os turistas.

Eu sou o mais velho de três irmãos, vivemos uma vida pacata sem luxo, mas nunca passamos necessidades. Ontem eu estava olhando a televisão e vi uma notícia que um pequeno satélite iria cair perto da nossa cidade, era algum tipo de desativação, mas até ele passar a atmosfera com a entrada chegaria em solo do tamanho de uma moeda, sem perigo nenhum, seria uma pena, pois se algo grande acontecesse, muitos mais turistas iriam aparecer, e imagina se caísse perto do cemitério, estaríamos ricos.

Assim que o sol se pôs, um rastro de fumaça cortou o céu, e caiu no lado de nossa casa fazendo um grande estrondo. Fiquei intrigado, como uma coisa do tamanho de uma moeda poderia fazer tanto estrago. Olhamos pela janela e o buraco era enorme e em volta algo que nunca tinha visto, fogo na terra remexida. Como pensávamos que fosse o pedaço de satélite, meu pai esperou o fogo baixar e fomos todos pra rua ver aquele grande evento, até o nosso cachorro que estava embaixo da mesa com medo foi junto.


Mas o que vimos não foi algo de metal, mas sim um pedaço de rocha arredondado com um buraco no meio. Era um meteoro, meu pai abriu um sorriso, poderíamos expor ele e ganhar um bom dinheiro. Meus irmãos pulavam e cantavam em volta alegres.

          A alegria se tornou tensão, o meteoro começou a tremer, uma gosma roxa começou a sair de dentro, aquilo parecia estar viva, e realmente estava, pulou no meu irmão menor, entrou dentro dele pela boca, nariz, orelhas e olhos. Fiquei imóvel aterrorizado com a cena, meus pais o pegaram, mas ele estava diferente, se livrou deles e começou a falar uma língua estranha com um som metálico, o cachorro não parava de latir pra ele, aquela gosma tinha tomado o controle de meu irmão. Pegou um pedaço de pau e tentou bater na gente, todos nós tentamos segura-lo, mas a força dele era muito maior que o normal, ele derrubou todos nós, caímos desacordados no chão, quando acordados meu irmão estava enforcado em uma árvore.


Voltamos pra casa atordoados com o que tinha acontecido, meu pai levou o corpo de meu irmão pra dentro. A gosma tinha saído de dentro dele, mas para onde tinha ido era um mistério, estava desconfiado que tinha entrado em um de nós enquanto estávamos inconscientes, mas quem seria? Precisava ficar de olho, se não teríamos que enterrar outro de nós.

Meu pai tinha uma arma dentro do armário, a peguei, a única certeza que tinha era que eu não era aquela gosma, mas se fosse nosso pai estávamos perdidos, então precisava proteger minha mãe e meus irmãos que restaram.


Fiquei de olho em todos, minha família corria risco, meu pai estava estranho, levou o corpo sem vida de Matias pro seu quarto. Não poderia arriscar fui atrás dele no quarto, era ele, eu sei, bem obvio, o que eu vou fazer? Minha mãe estava chorando demais na sala junto com meus irmãos, eu tenho que fazer algo, a gosma ia tomar conta de todos nós, ele estava de joelhos de costa pra mim, apontei a arma, ele se vira e eu atiro.

Agora meu pai estava ali no chão com um buraco na cabeça em volta de muito sangue que escorria pelo chão. Minha mão estava doendo, nunca tinha atirado antes, deu um coice que tremeu meu braço. E o barulho foi alto e seco seguido do impacto de meu pai caindo no chão. A gosma não saiu de dentro dele.

Minha mãe chegou logo em seguida, quando viu o pai no chão e eu com uma arma na mão entrou em desespero, e partiu pra cima de mim, tentei segura-la, mas ela estava com uma loucura nos olhos, naquela luta a arma disparou. Minha mãe caiu de joelhos com a barriga sangrando, era ela agora tenho certeza, com mais dois disparos no peito ela cai morta no chão.


A gosma também não saiu dela, agora sou eu que estou em desespero, só podia ser um dos meus dois irmãos que estavam na sala, ou era Romano ou a Valentina. Fui até a sala correndo, os dois estavam abraçados no sofá chorando e o cachorro latindo pra eles. Com certeza era um deles, mas agora qual? Não podia arriscar logo agora, eu sinto muito mais tenho que matar os dois.

O cachorro morde a perna de Romano e eu atiro no reflexo, a bala pega no seu ombro, Valentina assustada corre para a porta e eu atiro nas suas costas duas vezes, ela cai morta no chão. Romano ainda estava vivo e se arrastava tentando fugir, eu chego perto dele e atiro na sua cabeça, agora sim a gosma tinha sido eliminada.

Eu caminho até a rua, o sol já estava iluminando tudo, o nosso cachorro passa por minha perna e se vira pra mim, seus olhos estavam roxos. Ele corre pra longe, eu atiro, mas não consigo acerta-lo. Volto pra dentro de casa e vejo tudo o que eu fiz, sobrou apenas uma bala na arma, eu aponto pra minha cabeça e aperto o gatilho. 




sexta-feira, 6 de abril de 2018

A Vela




A terceira grande guerra finalmente aconteceu, e teve consequências inimagináveis, noventa por cento da população mundial foi dizimada brutalmente pelas bombas e conflitos, mas isso não foi tudo o que aconteceu, não sabemos se foi uma bomba ou algum experimento de cientistas loucos, criou-se um buraco na realidade e criaturas misteriosas invadiram nosso mundo agora indefeso e quase morto. Essas criaturas misteriosas tinham uma fraqueza não gostavam de luz, o único problema disso tudo é que não existia mais energia elétrica.

Nosso estoque de velas durou quase um ano, sobraram poucas agora, tínhamos que manter a fogueira acessa durante toda a noite, nunca dormíamos ao mesmo tempo, eu era responsável, como mais velho dos filhos, de ficar acordado quando era o meu turno, era imprescindível essa rotina, porque os monstros estavam à espreita, se a escuridão tomasse conta eles atacariam ferozmente sem deixar rastros. 


Já se passaram três anos que a terceira e última guerra acabou, e a civilização parece que dessa vez não vai se recuperar, além da destruição quase total das cidades, esses monstros impediam o avanço humano novamente. Eu nunca vi nenhum deles, por sorte sempre conseguimos manter a luz com nós, o mais perto que chegamos de uma vista deles, foi com nossos falecidos vizinhos há 6 meses, escutamos apenas os barulhos horríveis deles sendo devorados, meu pai queria ir ajuda-los, mas minha mãe estava muito doente na época e temia pela sobrevivência de todos nós. Não sabíamos como eram, o que eram, sabíamos apenas que eram selvagens e se alimentavam da gente.


Hoje o dia está agitado, só sobrou uma única vela, e alguns fósforos para acende-la. O inverno estava rigoroso, e junto com o frio uma chuva fina constante. Toda a madeira que poderia servir para fazer a fogueira estava úmida e dificilmente seria possível atear fogo nela.



O dia já estava chegando no fim, e meu pai não estava conseguindo fazer a fogueira, tínhamos então que fazer um plano b, ficaríamos trancados em casa no escuro mesmo, e quando os monstros chegassem ascenderíamos a vela e eles fugiriam, se tivermos sorte tudo ocorreria bem.

A noite finalmente chegou, a tensão entre nós era grande, esse poderia ser o fim. Des que os monstros chegaram ninguém tinha sobrevivido aos ataques deles, se a estratégia desse certo seríamos os primeiros.

Meu pai trancou a casa com tudo o que tinha disponível, geladeira e fogão na porta bloqueando a passagem, fomos pro quarto e ficamos ali na expectativa, quase duas horas se passaram e nada de algum movimento. Minha mãe tremia dos pés à cabeça, mas mesmo assim nos segurava forte, tão forte que estava quase nos machucando. Tenho quase certeza que ela estava escutando o meu coração bater, porque ele estava em um ritmo super acelerado.


Depois do que pareceu uma eternidade, eles chegaram. O barulho que faziam era horripilante, não parecia com nada que existisse na terra, se pudesse descrever seria uma mistura de choro de bebê com um urro de urso agonizando. Esse som parecia chegar na nossa alma e parti-la ao meio.


Meu pai visivelmente estava assustado também, mas mantinha a postura por todos nós. Ele pegou a vela e acendeu com o ultimo fosforo que tínhamos. A fresta de luz que passou pela porta fez o barulho silenciar e os movimentos cessarem.

A vela não ia aguentar a noite inteira acessa, e não tínhamos certeza se os monstros tinham ido embora. Quando a vela estava pela metade, meu pai resolveu verificar, precisava fazer isso, precisava ter certeza que tinham fugido, pois a vela seria importante pro dia seguinte.

Durante um longo tempo não escutamos nada quando o pai nos deixou, a ansiedade estava matando a gente por dentro, minha mãe agora chorava descontroladamente, parecia prever que o pior aconteceria, e aconteceu. O som voltou com tudo, e agora misturado com os gritos de dor do pai, e depois silencio absoluto novamente.



Pela nossa percepção do tempo faltava uma hora pra amanhecer, mas a vela estava no fim, tudo na casa que poderia pegar fogo já tinha sido utilizado, cortinas, mesas, cadeira, panos, nossas roupas que sobraram úmidas não queimaram com a pequena chama. A chama já oscilava, pois estava bem perto da base.

A mãe nos apertou ainda mais, pude sentir todo o seu amor por nós, meus irmãos de olhos fechados apenas esperando o fim. A parafina tinha chegado ao fim, o ultimo centímetro de fiapo da corda estava queimando, minha mãe no desespero com o ultimo resquício da chama tentou colocar fogo nela mesmo, mas também em vão.

A luz desapareceu, a vela se apagou. 



sexta-feira, 23 de março de 2018

Aquela Parada




Relatórios, planilhas, processos e pessoas chatas, foi isso com o que eu lidei o dia inteiro. Já estou quase no meu limite de stress, se fosse apenas o trabalho aos montes, já seria muito, mas aguentar o mal humor dos outros era demais. Trabalhar em escritório é muito difícil, mesma rotina, mesmas pessoas, mesmos problemas sem solução tudo em um ciclo interminável, que está me deixando muito pra baixo. Finalmente o dia está acabando, é o melhor ainda, é sexta-feira, preciso muito desse final de semana, vou desligar meu cérebro e não pensar em nada, como dizem preciso recarregar as baterias.




Para meu ódio profundo chegou um relatório de última hora, era urgente ser feito o mais rápido possível, faltava apenas dez minutos pro fim do expediente quando essa bomba chegou. Onze horas da noite foi quando consegui terminar aquela merda de relatório, estava zonza com uma baita dor de cabeça, queria matar qualquer um que aparecesse na minha frente, e justamente o cara mais chato da empresa tinha ficado também até mais tarde, e me encontrou na espera do elevador, não sei mais o que de ruim poderia me acontecer hoje.

Tive que ir com ele no elevador contando piadas sujas e sem graça, tive que me controlar pra não enfiar a mão na cara dele, e o elevador parando em cada andar no total de 32, era como um pesadelo. Quando chegamos na rua ele pegou seu carro e foi embora, aquele desgraçado nem para me oferecer uma carona, eu estava sem carro, e agora essa hora da noite tinha que esperar o último ônibus.

O clima até pouco tempo estava seco e abafado, mas assim que cheguei na parada começou a ventar e a temperatura caiu muito. Era apenas eu e a esperança que um ônibus fosse passar, tentei chamar um uber, mas não tinha nenhum na região disponível, nem taxis estavam passando, nesse momento pensei em toda minha vida de merda, precisava muito mudar, perdida nos meus pensamentos olhando pro horizonte notei um encapuzado na esquina.


Cruzei os braços e me encolhi tentando parecer invisível, não consegui ver o rosto por dentro do capuz, ele estava me dando calafrios. As luzes em volta se apagaram, temi que o pior poderia acontecer. Ele começou a caminhar em minha direção, depois de cinco passos ele parou e ficou me encarando, e assim continuou nesse ritual até ficar poucos metros de mim, queria correr mais minhas pernas não me obedeciam.


Ele começou a circular a parada, depois de algum tempo de total pavor, percebi que ele queria me tirar dali, fazer eu sair da parada, por algum motivo ele não podia me atacar enquanto eu estava ali de baixo.


Ele chegou o mais perto possível, e por baixo do capuz era uma imensidão escura, parecia um buraco negro, não sei como definir ao certo, mas ele parecia estar sugando minha energia, tive vontade de correr, mas se fizesse isso poderia ser meu fim.

Uma esperança fez meu coração se acalmar um pouco, uma leve chuva começou a cair. O misterioso cara poderia desaparecer com esse novo evento inesperado, mas ficou imóvel e enquanto a chuva caia encima dele as suas roupas começaram a derreter revelando uma imensidão vazia por baixo, era como um buraco negro em forma de pessoa.


A chuva não estava derretendo apenas as roupas, mas também a parada estava derretendo com a água que caia, e quando o primeiro pingo tocou o meu ombro senti que era um ácido dos infernos, corri dali, não tinha mais o porquê ficar, a chuva aumentou nesse exato momento, não consegui ir muito longe com meus pés derretendo até aparecer os ossos, cai no chão com o resto da minha pele virando uma gosma, mas esse não era o meu fim, como um verdadeiro buraco negro fui sugada pra dentro dele e me perdi na escuridão eterna. 


LENDAS URBANAS

LENDAS URBANAS

Postagens populares

100.000

100.000

Página no Facebook