"Tornei-me insano, com longos intervalos de uma horrível sanidade" - Edgar Allan Poe

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segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

Fantoche




A casa de bonecos não ficava muito longe da sua casa, Jéssica dispensou o carro e foi a pé, logo teria que vende-lo por causa da situação financeira difícil que estavam enfrentando ela e seu marido. Essa loja dava certos calafrios nela, aqueles bonecos de pano com seus olhos fixos como se estivessem esperando a chance de piscar. Carlos era mágico, mas gostava bastante da ideia de se apresentar com bonecos de ventriloco, chamaria bastante público, era o que eles precisavam no momento.


Tinha bonecos de todos os tipos; grandes; pequenos; negros; brancos; azuis; verdes; alguns tinham corpos inteiros, outros da cintura pra cima; mulheres; homens; bonecos de animais também, muitos deles Jéssica achou horrorosos. O senhor que a atendeu também era bastante estranho, tinha quase certeza que em todo o tempo que estivera com ele não tinha piscado uma vez se quer, seu rosto parecia daqueles famosos que exageravam nas plásticas, parecia de cera sem expressão.


O pó tomava conta do local, diversas vezes ela teve que parar pra espirrar, depois de quase meia hora caminhando pra lá e pra cá na loja, ela finalmente encontrou o boneco perfeito, era até parecido com seu marido, tinha um pouco mais de um metro e meio de altura, cabelos vermelhos curtos, a boca desenhada em forma de sorriso e bochechas rosadas.

O boneco que ela escolheu e apelidou de Jr. era bem pesado, mas muito bem feito, tinha um buraco nas costas pra mão de Carlos o controlar, depois de decidida ela comprou. Quando chegou em casa ele quase chorou de alegria com o presente de sua amada esposa, era perfeito, tudo que ele queria, sua felicidade era tanta que decidiu fazer o jantar, a comida favorita de sua esposa, Strogonoff.

Depois de um lindo e delicioso jantar Carlos decidiu treinar um pouco com o boneco antes de se deitar, Jéssica adormeceu o esperando. Ao acordar ela sentiu uma mão no seu rosto e movimento no seu lado, ainda com os olhos fechados perguntou porque ele ainda estava deitado se tinha que levantar cedo, mas ao abrir os olhos não era Carlos que estava na cama ao seu lado, mas sim o boneco Jr.


Jéssica levanta assustada tinha certeza que sentiu alguém se movimentando ao seu lado, mas era o boneca que estava ali deitado sem vida, gritou por Carlos, mas ele não estava em casa. Ela se levantou deixando o boneco na cama foi tomar banho, pois também precisava sair, enquanto estava no chuveiro teve a impressão que estavam a observando.

O dia demorou a passar o clima abafado e o céu nublado não ajudavam muito, mas mesmo assim Carlos estava empolgado pra voltar pra casa e continuar treinando com seu novíssimo boneco. Já tinha comentado com seus amigos que começaria uma nova atração em breve, assim que chegou em casa foi direto pegar o boneco, sem ao menos dar um beijo em Jéssica que estava vendo televisão, que ficou irritadíssima.


A semana foi passando e Carlos estava cada vez mais viciado no boneco, treinava diversas falas, movimentos, ficava mais tempo com Jr. do que com Jéssica, e ela não estava gostando nada disso.

- O que foi essa mordida na tua mão? – Jéssica perguntou quando viu a marca de dentes na mão de Carlos.

- Pior que eu não sei, viu algum bicho por aí de noite? – Ele respondeu meio confuso, parecia mesmo não saber da origem do machucado.

- Não, mas por que não pergunta pra esse boneco, ele deve saber, vocês parecem um casal agora, já que passa o tempo todo com ele. – Ela pareceu não acreditar nele.

- O nome dele é Jr.

- Eu não to ouvindo isso, dá licença eu vou me deitar. – Jéssica foi pro seu quarto muito irritada.

Jéssica adormeceu rapidamente estava muito cansada, acordou de madrugada pra ir ao banheiro, Carlos não estava na cama, abriu a porta devagar e escutou uma conversa entre Carlos e o boneco, achou estranho, mas pensou ser apenas treinamento pra a apresentação, foi ao banheiro depois voltou a dormir. Quando acordou pela manhã o boneco estava novamente deitado ao seu lado, mas dessa vez nos braços de Carlos que dormia profundamente.
- Já acordou Jéssica? Estava esperando por ti. – A boca do boneco se mexeu enquanto ele se virava pra ela.

- Tá de brincadeira comigo né Carlos? Pode para com essa palhaçada. – Depois do pequeno susto ela falou.
- Não existe palhaçada querida, eu estou no comando. – O boneco continuou mexendo a boca, Jéssica levanta irritada.

- O que foi? O que está acontecendo? Droga estou atrasado. – Carlos aparentemente havia despertado só agora, mas não convenceu Jéssica.

- Não se faça de inocente, tentando me assustar com esse boneco, você tá ficando maluco só pode.

- O que? Eu acabei de acordar, foi tu que colocou o Jr. aqui? Eu deixei ele na sala. – Carlos novamente parecia confuso.

- Não me faça de boba, por favor! – Jéssica foi tomar o seu banho enquanto Carlos sentiu seu braço doer.
Hoje Carlos ia fazer a sua primeira apresentação com o boneco de ventriloco em uma festa infantil, Jéssica decidiu ir junto pra prestigiar o seu marido e também ficar de olho nele por causa do jeito estranho que vinha se comportando.

Carlos fez as apresentações de mágica super feliz como sempre, mas depois que colocou o braço dentro do boneco e começou a sua apresentação como ventrílogo, ele mudou, ficou mais sério, fez piadas pesadas, falou palavrões, gestos obscenos, os pais das crianças ficaram chocados, e ele foi expulso do lugar.


Durante toda a viagem de volta Carlos ficou calado apenas olhava pra frente com a expressão vazia como se estivesse em transe, Jéssica estava preocupada, ele ainda estava com o boneco no braço que se mexia constantemente, o que estava deixando ela nervosa e desconfortável. Assim que chegaram em casa ele se sentou no sofá e ali ficou, olhando pra frente sem se mexer, enquanto o boneco no seu braço parecia estar vivo e consciente de tudo a sua volta.

- Eu preciso de você, aliás, eu acho que te amo. – A voz saiu enquanto o Jr. mexia a boca, Jéssica olhava só pra seu marido ignorando o boneco.

- Eu também te amo Carlos, mas o que está acontecendo? – Ela se aproximou dele e segurou seu rosto com as mãos.

- Carlos não existe mais, apenas eu meu amor. – O braço de Carlos levantou com o boneco. – Eu estou no controle, fale apenas comigo agora, se quiser que seu marido permaneça vivo.

- Carlos que tipo de brincadeira é essa?

- Não é brincadeira Jéssica, entenda de uma vez por todas, ou quer que eu me enfureça. – O corpo de Carlos levantou, com a outra mão deu um tapa na cara de Jéssica. – Agora sente, viu como esse corpo agora é meu. Agora nós vamos viver uma vida feliz juntos.

Jéssica estava ajoelhada na sua frente chorando com a mão na boca, o corpo de Carlos estica o braço com Jr. até se aproximar bem perto dela, pode perceber que o boneco estava definitivamente vivo, ele afasta as mãos dela do rosto e a beija na boca, uma sensação diferente passa pelo seu corpo e ela se entrega ao boneco.


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